Histórias de superação, independência financeira e transformação digital mostram como mulheres sergipanas encontraram nas redes sociais uma oportunidade para empreender, gerar renda e construir novos caminhos
Por Micael Brandão

Quando decidiu deixar a carteira assinada para apostar no próprio sonho, Letícia Azevedo acreditava que estava iniciando uma nova fase da vida. Moradora de Nossa Senhora das Dores, no médio sertão sergipano, ela havia decidido trocar a estabilidade do emprego pela incerteza de empreender no ramo da confeitaria.
O plano parecia bem definido. Ao lado de uma prima, investiu em utensílios, materiais e tudo o que seria necessário para colocar em funcionamento um novo negócio. A expectativa era iniciar as atividades logo nos primeiros meses de 2020.
Mas antes mesmo de dar os primeiros passos, os planos foram interrompidos. A chegada da pandemia da Covid-19 mudou a rotina do mundo inteiro e também a vida da futura empreendedora.
“Em janeiro de 2020 nós compramos materiais, investimos em várias coisas, mas infelizmente veio a pandemia. Eu ainda tentei conversar com a prefeitura porque queria colocar um carrinho gourmet em locais de movimento, próximo à feira e em outros espaços da cidade. Mas naquele momento isso não era possível”, relembra.
Como já havia investido recursos próprios e a Páscoa se aproximava, Letícia decidiu não desistir completamente. A venda de chocolates e produtos temáticos garantiu um bom resultado, mas a continuidade do projeto precisou ser adiada.
Pouco tempo depois, ela voltou ao mercado de trabalho formal. “Meu sonho ficou adormecido por um tempo. Fui chamada para trabalhar em uma empresa e fiquei lá por quase dois anos.”

O desejo de empreender, porém, nunca desapareceu. Em 2022, ainda trabalhando de carteira assinada, decidiu produzir doces para complementar a renda durante a Páscoa. O resultado surpreendeu.
“Foi um sucesso. Recebi várias encomendas e uma amiga me incentivou a continuar. Ela dizia que os doces eram muito bons e que eu precisava investir nisso.”
O incentivo se transformou em coragem.
A confeitaria passou a funcionar aos finais de semana através de um sistema de delivery.
Meses depois, uma demissão mudaria definitivamente os rumos da história.
“A forma como fui demitida foi muito injusta. Mas transformei aquela frustração em força de vontade. Vontade para montar o meu próprio negócio e trabalhar para mim.”
Foi naquele momento que a Lê Gourmet começou a ganhar forma.
Inicialmente, a produção acontecia na cozinha da própria residência. As panelas eram as mesmas utilizadas pela família, a geladeira também. Mas as vendas começaram a crescer. “Eu percebia que a cada semana os pedidos aumentavam. Nunca diminuíam.”
O crescimento exigiu novos investimentos. Primeiro veio uma geladeira exclusiva para os produtos, depois uma expositora. Mais tarde, um dos quartos da casa foi transformado em cozinha profissional. Forno industrial, batedeira planetária, bancadas, armários e equipamentos específicos passaram a fazer parte da rotina.

Hoje, a Lê Gourmet ultrapassa sete mil seguidores nas redes sociais e atende clientes em diferentes regiões da cidade. Mas para Letícia, o crescimento do negócio não pode ser explicado apenas pela qualidade dos produtos, a tecnologia teve papel decisivo. “Como minha confeitaria é delivery, desde o início eu entendi que a minha vitrine seria o Instagram e a minha comunicação com os clientes seria através do WhatsApp.”
Foi através das fotografias publicadas na internet que os clientes passaram a conhecer os produtos e através do WhatsApp que os pedidos começaram a chegar. “Se não fosse a combinação do Instagram com o WhatsApp, minha confeitaria não teria chegado tão longe. Se essas ferramentas não existissem, eu precisaria de um ponto físico para mostrar meus produtos. Hoje eu vendo sem sair de casa.”
A trajetória da confeiteira representa uma realidade cada vez mais presente em Sergipe.
Segundo levantamento do Sebrae, o estado possui atualmente 102,8 mil mulheres donas de negócios formais e informais. Desse total, 64,3% são responsáveis pelos próprios lares. Entre 2012 e 2025, o número de mulheres empreendedoras cresceu 20% no estado.
Os números ajudam a explicar um movimento que vem ganhando força em diferentes regiões sergipanas. Histórias como a de Letícia mostram que, para muitas mulheres, empreender vai além da geração de renda. É também uma oportunidade de conquistar autonomia, flexibilidade e independência financeira.

“Muitas mulheres são responsáveis financeiras pelos seus lares. Quando não são as principais responsáveis, fazem a complementação da renda familiar. O empreendedorismo traz liberdade financeira, autonomia e também flexibilidade para conciliar diferentes papéis da vida”, explica Mariana Araújo, analista técnica do Sebrae Sergipe.
Segundo ela, o crescimento dos negócios liderados por mulheres também fortalece a economia e estimula a criação de redes de apoio entre empreendedoras.
“As mulheres acabam consumindo umas das outras, criando parcerias e fortalecendo seus negócios. Além da gestão, trabalhamos competências comportamentais como liderança, inteligência emocional, autorresponsabilidade e autoconhecimento, porque tudo isso contribui para a longevidade dos empreendimentos.”
Entre os pequenos negócios liderados por mulheres em Sergipe, mais de 46 mil atuam no setor de serviços e mais de 13 mil fazem parte da economia criativa.
É justamente nesse universo que outras empreendedoras sergipanas encontraram espaço para transformar talento em profissão, criar oportunidades e construir novas histórias através da tecnologia.
Quando a tecnologia encontra oportunidade
Foi justamente nesse universo que Ana Araujo encontrou espaço para transformar um talento de infância em profissão. Natural de Nossa Senhora das Dores e atualmente morando em Aracaju, a fotógrafa descobriu ainda na adolescência uma paixão por registrar momentos, paisagens e detalhes do cotidiano.

“O amor pela fotografia surgiu há muitos anos. Eu era pré-adolescente quando comecei a fotografar paisagens, detalhes do dia a dia e da vida. Sempre tive um olhar diferenciado para apreciar o cotidiano.”
Mas transformar esse olhar em profissão levou tempo, durante quase quatro anos, Ana fotografou apenas com o celular. Na época, poucas pessoas acreditavam que seria possível produzir imagens de qualidade profissional utilizando apenas um aparelho que cabia no bolso. “Foi bem difícil porque nem todo mundo conseguia enxergar como ter uma fotografia de qualidade com o celular. Era algo muito diferente para aquela época.”
A oportunidade surgiu durante a pandemia, enquanto milhares de pessoas buscavam novas formas de trabalhar e gerar renda, algumas amigas passaram a perceber o talento que Ana demonstrava nas imagens publicadas em suas redes sociais. “Algumas pessoas próximas viram meu olhar diferenciado através do meu Instagram pessoal e começaram a me convidar para fotografá-las. Foi aí que surgiu a parte profissional.”
Os primeiros ensaios aconteceram de forma simples. No início, ela atendia os clientes em suas próprias residências. Com o crescimento da procura, montou um pequeno estúdio na sala de casa, ainda em Nossa Senhora das Dores.

Mais tarde, mudou-se para Aracaju. Hoje, está à frente do Studio Ana Araújo, especializado em ensaios para gestantes, famílias, crianças e diferentes fases da vida.
Ao olhar para trás, ela acredita que o maior obstáculo não foi financeiro.
Foi acreditar em si mesma.
“Muitos confiaram mais em mim do que eu mesma.”
A frase resume o sentimento que acompanhou os primeiros anos da trajetória.
“Se eu pudesse voltar ao início, diria para mim mesma confiar mais. Muitas pessoas acreditavam no meu potencial, mas eu ainda me sabotava muito.”
Assim como aconteceu com Letícia, as plataformas digitais tiveram papel fundamental na construção do negócio. “O Instagram sempre foi meu principal portfólio. Eu não tenho site. As pessoas conhecem meu trabalho por lá.”
Mas a vitrine digital é apenas o começo da relação com os clientes. “Eles chegam pelo Instagram, mas toda a parte de orçamento, contratos e relacionamento acontece pelo WhatsApp.” A fotógrafa afirma que hoje seria impossível imaginar a rotina profissional sem a ferramenta. “O WhatsApp é essencial. Toda a parte de venda, atendimento e relacionamento acontece por lá.”
Se para Ana Rute as redes sociais serviram para apresentar seu trabalho ao público, para Ingrid Fantagussi elas foram fundamentais para construir uma empresa praticamente do zero.
Hoje moradora de Nossa Senhora da Glória e à frente da Ingrid Fantagussi Cerimonial, ela atua há mais de uma década no mercado de eventos.

Mas a ideia do negócio surgiu a partir de uma necessidade pessoal.
Ao organizar o próprio casamento, Ingrid percebeu que sua cidade não possuía profissionais especializados em acompanhar os noivos durante todo o processo de preparação. “Eu organizei meu casamento sozinha porque não existia esse tipo de serviço na cidade.” O sucesso da organização chamou atenção de familiares e amigos. “Depois do casamento, as pessoas começaram a dizer que eu tinha talento para aquilo.”
Em vez de seguir uma graduação tradicional, decidiu investir em cursos e capacitações voltadas para o segmento de eventos, mas existia um desafio. Além de não haver profissionais na área, muitas pessoas sequer entendiam o que fazia uma assessoria cerimonial. “Eu precisei fazer um trabalho de formiguinha para explicar às pessoas o que era esse serviço e por que ele era importante.”

Sem recursos para investir em publicidade tradicional, ela encontrou nas redes sociais uma solução.
“As redes sociais foram os meus primeiros funcionários.”
A frase resume uma trajetória construída com poucos recursos e muita dedicação.
“Eu comecei com papel e caneta na mão, com zero reais e um sonho.”
Foi através do Facebook, e posteriormente do Instagram, que Ingrid passou a divulgar seu trabalho, compartilhar orientações e mostrar os bastidores da organização de eventos.
A estratégia funcionou.
Hoje, a Ingrid Fantagussi Cerimonial reúne cerca de 11,6 mil seguidores e se consolidou como referência no segmento.
Mas o impacto da tecnologia vai muito além da divulgação.
“O primeiro contato geralmente acontece pelo Instagram e segue para o WhatsApp. Depois criamos grupos com os clientes para centralizar todas as informações.” Segundo ela, a ferramenta se tornou indispensável para o relacionamento com os clientes. “O WhatsApp facilita tudo. Ele traz clareza, praticidade e direcionamento.”
A empresa também utiliza contratos digitais, reuniões online, plataformas de gestão e aplicativos específicos para organização dos eventos. “Hoje temos clientes que fazem a primeira reunião por Google Meet. A tecnologia mudou completamente a forma como trabalhamos.”
Além de impulsionar o crescimento da empresa, o empreendedorismo trouxe outra conquista importante: a possibilidade de conciliar carreira e maternidade. Mãe de dois filhos, Ingrid encontrou flexibilidade para construir a própria rotina. “Muitas vezes eu respondia clientes durante as madrugadas enquanto amamentava.”
Segundo ela, o apoio da família foi fundamental. “Meu esposo sempre ficou com os meninos durante os eventos. Sem essa rede de apoio teria sido muito mais difícil.”
Para Ingrid, uma das maiores vantagens de empreender está justamente na possibilidade de organizar o próprio tempo. “Eu consigo construir minha agenda e oferecer qualidade de vida aos meus filhos. Esse é um dos maiores benefícios do empreendedorismo para a mulher.”
Mas transformar uma ideia em negócio exige mais do que dedicação e criatividade. Também requer planejamento e organização financeira.

Para Rozicleide Oliveira, analista contábil da Tamoio Contabilidade, a formalização é um dos passos mais importantes para quem deseja crescer de forma sustentável.
“A formalização como MEI proporciona segurança financeira, jurídica e previdenciária para a mulher empreendedora.”
Segundo ela, muitas mulheres iniciam um negócio buscando autonomia financeira ou uma forma de conciliar maternidade e trabalho.
“O MEI oferece a oportunidade de atuar de forma legalizada, com baixo custo e acesso a benefícios importantes, como aposentadoria, auxílio-doença e salário-maternidade.”
A especialista alerta que um dos erros mais comuns entre empreendedores que começam pelas redes sociais é misturar as finanças pessoais com as empresariais.
“Muitos iniciam sem planejamento ou sem conhecimento suficiente sobre o mercado em que desejam atuar.”
Ainda assim, ela reforça que é possível começar pequeno.
“Com planejamento e orientação, é possível começar com poucos recursos e crescer de forma sustentável.”
E foi justamente começando com pouco, enfrentando desafios muito maiores do que os obstáculos de um negócio, que outra empreendedora sergipana encontrou forças para reescrever a própria história.
Recomeçar também é empreender
Se para Letícia Azevedo, Ana Araujo e Ingrid Fantagussi a tecnologia ajudou a impulsionar sonhos e transformar talentos em negócios, para Cinesia Correia ela representou algo ainda maior: a possibilidade de recomeçar.
Moradora de Nossa Senhora das Dores, ela iniciou sua trajetória empreendedora em 2018, vendendo lanches em um carrinho instalado em frente a uma escola durante o período da noite.
A rotina era simples. Todos os dias, preparava os ingredientes, organizava o carrinho e saía para trabalhar em busca de garantir a renda da família. Mas, dois anos depois, sua vida enfrentaria um dos momentos mais difíceis.
Em 2020, enquanto o mundo enfrentava uma das maiores crises sanitárias da história recente, Cinesia recebeu o diagnóstico de câncer de mama. De um lado, a pandemia alterava hábitos, restringia a circulação de pessoas e afetava a economia. Do outro, ela iniciava uma batalha pela própria saúde.
Foram meses de tratamento, consultas, exames e incertezas. Em meio ao processo, precisou reaprender a lidar com a rotina e encontrar forças para seguir em frente. Em 2021, veio a notícia que ela tanto aguardava: o tratamento havia sido concluído com sucesso.
Hoje, cinco anos depois, ela celebra não apenas a cura, mas também a oportunidade de continuar construindo novos caminhos.

“A fase após o tratamento de um câncer marca o início de uma nova etapa. Descobri que suportar algo tão exaustivo prova nossa resiliência e abre espaço para novos começos.”
Foi justamente nesse período que uma alternativa ganhou força.
Assim como milhares de pequenos empreendedores em todo o país, ela encontrou no delivery uma maneira de continuar trabalhando em um momento em que sair de casa deixou de ser uma opção para muitas pessoas.
“Foi durante a pandemia que o delivery surgiu realmente para nós. Como as pessoas não podiam sair de casa, foi uma forma de continuar trazendo o pão de cada dia para dentro de casa.”
A estratégia deu resultado.
O que antes era uma atividade concentrada em um ponto físico passou a alcançar clientes em diferentes regiões da cidade. Hoje, o Cachorro-Quente da Cinesia atende mais de 60 pessoas por noite, entre 18h e 22h.
Mais uma vez, a tecnologia aparece como elo entre histórias diferentes.
Assim como a Lê Gourmet encontrou no Instagram uma vitrine para seus produtos, o Studio Ana Araújo transformou as redes sociais em portfólio e a Ingrid Fantagussi Cerimonial utilizou plataformas digitais para conquistar clientes, Cinesia também descobriu que a internet poderia aproximar seu negócio das pessoas.
“O Instagram funciona como uma vitrine para atrair e gerar interesse, enquanto o WhatsApp atua como balcão de vendas, onde o atendimento é personalizado e o fechamento do negócio acontece.”
Mas, para ela, nenhuma ferramenta seria suficiente sem aquilo que considera o principal pilar da sua trajetória.
A família.

“Sem minha família junto eu não tinha continuado. A família foi a maior importância durante todo o processo.”
O apoio dos filhos e familiares ajudou a manter o negócio funcionando nos momentos mais difíceis.
Mais do que dividir tarefas, eles dividiram responsabilidades, desafios e conquistas.
“Trabalhar em família é a base. Sem minha família eu não teria continuado e não continuaria com meu trabalho.”
A frase poderia resumir não apenas sua trajetória, mas também a história de muitas mulheres que encontraram no empreendedorismo uma oportunidade de transformar desafios em recomeços.
Quando decidiu deixar o emprego para investir no sonho de empreender, Letícia Azevedo não imaginava que uma pandemia mudaria seus planos. Ainda assim, seguiu em frente e transformou a Lê Gourmet em uma marca reconhecida em sua cidade.
Ana Rute continuou acreditando em um sonho que começou com fotografias feitas pelo celular e construiu uma carreira que a levou do interior para a capital sergipana.
Ingrid Fantagussi transformou as redes sociais em ferramenta de trabalho quando ainda não tinha recursos para investir no próprio negócio e hoje comanda uma empresa consolidada no mercado de eventos.
Já Cinesia Correia venceu uma batalha contra o câncer e encontrou no delivery uma nova oportunidade para recomeçar.
As histórias são diferentes, mas se cruzam em vários momentos. Houve desafios, mudanças inesperadas e recomeços. Houve também coragem para seguir em frente quando os planos precisaram ser refeitos. Nesse caminho, a tecnologia se tornou uma aliada para aproximar clientes, divulgar serviços e abrir novas oportunidades.
Talvez por isso uma das frases ouvidas durante esta reportagem resuma tão bem a trajetória de milhares de empreendedoras sergipanas.
“Eu comecei com papel e caneta na mão, com zero reais e um sonho.”
Mais de uma década depois, a frase de Ingrid Fantagussi continua ecoando como um lembrete de que grandes histórias nem sempre começam com grandes estruturas.
Às vezes, começam apenas com coragem, um celular na mão e a decisão de não desistir.
Respostas de 6
Que matéria linda, cheia de histórias enriquecedoras!
Parabéns, pra essas guerreiras,valentes,destimidas,que com a fé, e a coragem,enfrentaram os obstáculos do caminho e conseguiram vencer seus medos e provarem,para si mesmo,que nada é impossível, quando a vontade de vencer é maior! Brava!!!! Bravissimas!!!!
Que conteúdo maravilhoso! Parabéns! Histórias inspiradoras ❤️
Que histórias lindas e tão real, você escreveu devidamente cada uma
Deus te abençoe mais e mais e que seja o início de uma linda jornada…..
Que matéria linda, Deus continue abençoando essas mulheres, e venha contar mais histórias inspiradoras assim pra gente
Parabéns a todas essas pessoas inspiradoras, que transformaram dificuldades em grandes conquistas. Matéria de grande relevância. Parabéns.